"Vidas Ocupadas: A luta diária pelos Direitos Humanos na Palestina"

Redigido por: João Renato David e José Eduardo Valério

26 de Novembro. 2020

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Em conversa propiciada pela Associação Youth For The Future com o ativista pelos Direitos Humanos Badee Dwaik sobre a sua vida, na cidade de Hebron, sob a ocupação das Forças Armadas Israelenses, foi possível ter uma maior perspectiva sobre a atual situação vivida pelos povos da área. As tensões no território que engloba Israel e Palestina não são novidade, no entanto, desde a década de 60, se percebe uma hegemonia militar de Israel sobre seus vizinhos. A dominação evoluiu para a ocupação de terras e o ativista informa sobre o escárnio e a depreciação que seu povo sofre, em base diária, na sua própria terra natal.

Primeiramente perguntado sobre a data de início da ocupação em território palestino, Dwaik afirma que tal ocorrera em 1948, ano de criação do Estado israelense. Sobre este fato, afirma que não houve qualquer consulta ao povo árabe que habitava na região, pontuando então que a delimitação executada pelas Nações Unidas foi feita de forma injusta e visando apenas se livrar do problema dos judeus deslocados após as atrocidades da Segunda Guerra Mundial, que assolavam a Europa sem rumo. Após os inúmeros debates e textos reconhecendo as violações de direitos humanos realizados pelas mesmas Nações Unidas e nenhuma solução prática, se percebe que a impunidade ao Estado vizinho é o maior fator fomentando sua revolta.

A cidade natal do entrevistado, Hebron, foi ocupada em 1967 após a Guerra dos Seis Dias e formalmente dividida em 1997 pelo Acordo de Hebron. Na atualidade, pontua que a ocupação se faz em cada polegada da vida de seu povo, visto que a população não possui liberdade de locomoção dentro de sua própria cidade. Dwaik acrescenta ainda que parte da população tenha ainda sido deslocada pelas forças israelenses, ato reconhecido como ilegal por diversos países e por convenções assinadas mesmo por Israel. Dwaik exemplifica a partir da rua Shuhada, o que antigamente era a principal avenida comercial da cidade, hoje é habitada pelos povos e militares israelenses, diminuindo expressivamente a capacidade de comércio interno da cidade e, consequentemente, aumentando a pobreza de maneira geral. O ativista expõe que onde há ocupação, há uma reação contrária, uma resistência, sendo esta uma resposta natural.

A resistência do entrevistado, no entanto, se faz de forma pacífica. Dwaik, após relatar um rol de ações tomadas por Israel contra a Palestina, tais como o bloqueio de redes de telecomunicações, das zonas de cultivo e da distribuição de águas, aponta o fato da sua organização, a Human Rights Defenders, utilizar as câmeras como as suas armas de combate. A organização treina cidadãos da Palestina para que façam a documentação da violação de Direitos Humanos pelas tropas de Israel. Ele afirma que estas são as ferramentas que, incapazes de mentir, denunciam os atos ocorridos à comunidade internacional, expondo a todos o sofrimento cotidiano por ele experienciado.

O ativista informa que mesmo sendo pacífica, sua resistência não é bem vista pelas autoridades israelenses, tendo ele que pagar um grande preço pessoal. O entrevistado expõe com naturalidade o fato dos ativistas pelos direitos humanos na região possuírem um “maior alvo nas costas”. Dezessete é o número de vezes que fora preso ou detido, muitas dessas em frente à sua esposa e filhos. Informa também que muitas vezes seu dever de resistir colide com seu dever para com sua família, visto que a polícia já invadiu sua casa e, mais recentemente, seu filho de 16 anos foi detido pelas forças de defesa de Israel.

Quando questionado sobre o atual cenário, o entrevistado diz, revoltado, que a pandemia é mais um obstáculo a ser enfrentado por seu povo e descreve que o além do problema que é ter que enfrentar a COVID-19, enfrentá-la em consonância com as ocupações é ainda mais difícil. Ele também denuncia que os atos de violência se intensificaram durante este período, argumentando que tal fato ocorreu ao se perceber uma grande mudança no foco da mídia internacional.

Infelizmente, suas perspectivas para o futuro não são promissoras. Badee Dwaik revela que reza para que haja um movimento político em Israel que busque uma solução justa para o imbróglio, visto que os existentes somente querem uma Palestina enfraquecida e pobre. Quando questionado sobre um futuro violento, o entrevistado responde e encerra dizendo que “uma nova Intifada está por vir”, não sabendo quando, mas que os repetidos atos realizados por Israel e a constante impunidade terão uma natural resposta violenta pelo povo da Palestina, enfatizando novamente que é lei natural ao haver uma ocupação, haver também uma reação.